Um banquete, uma odisseia
«…A exposição “Ma mort sera petite, comme moi” é uma celebração da vida, do desejo, do prazer. Podemos vê-la como um banquete, uma odisseia. As pinturas de Sebastião Casanova trazem consigo quer o cheiro do óleo das tintas, quer o das refeições que lhes deram origem. Delas emana o perfume de um refogado, o sabor de uma lagosta grelhada na brasa, a memória de um prato de mexilhões degustado com um vinho alvarinho. Cenas familiares, encontros com amigos, noites de farra: a narrativa que sobressai desta mostra está relacionada com a boémia, onde o tema da comunidade assume um papel de destaque – o artista faz parte do bando das Caldas, cidade onde, nas últimas décadas, se formou aquela que é a mais estimulante cena artística nacional.
Nos trabalhos de Sebastião Casanova existe também uma relevante dimensão existencial: a reflexão que o artista nos propõe é acerca dos fins – da vida, da arte, dos tempos – sintetizados no conceito de epoché, originário da filosofia fenomenológica de Edmund Husserl. A “suspensão de pressupostos” partilhada entre Husserl e a pintura modernista, tem como intenção a busca de uma experiência mais autêntica da realidade. Ambos, o filósofo e a arte moderna, desafiam modos convencionais de ver e interpretar, propondo uma ruptura com hábitos mentais e estéticos. Enquanto Husserl suspende juízos para alcançar a essência filosófica, os artistas modernos suspenderam técnicas tradicionais para revelar novas possibilidades de expressão.
Sebastião Casanova é herdeiro de uma linhagem cultural absolutamente moderna. Na sua obra consigo discernir pontos de contacto com Pierre Bonnard (a mesa), Cézanne (as naturezas mortas), Morandi (idem), Broodthaers (os mexilhões), Daniel Spoerri (as refeições congeladas) e Rirkrit Tiravanija (a estética relacional). Nas nossas conversas, o artista referiu outras influências, sobretudo da fotografia – Cindy Sherman, Jeff Wall, Catherine Opie, Philip-Lorca diCorcia – e do cinema – Peter Greenaway, Sergio Leone, Paolo Sorrentino, Luis Buñuel ou a cena incial de Trinitá – Cowboy Insolente (Enzo Barboni, 1970), na qual o pistoleiro come uma gigantesca dose de feijões, acompanhado por um não menos volumoso pão, directamente da frigideira.
Uma crítica da alta burguesia, do grotesco da realidade, da paisagem social contemporânea, a pintura de Sebastião Casanova é um alimento para o espírito. Ela prefere a deriva à sala de estar. É na cozinha que tudo se resolve. À volta de um prato de lentilhas ou de uma açorda de camarão…»
Óscar Faria